quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A ANTROPOLOGIA PRECEDE A IDEOLOGIA


Há muitos mais modelos políticos, económicos e sociais do que aqueles que consegue imaginar o nosso pensamento ideológico.

Platão, sempre ele, resolveu-nos o problema ontogénico da dicotomia do eu e do outro, criando a ideia de ideia. A imperfeição deste mundo e dos que o pisamos conscientemente, justifica-se porque a matéria seria metonímia de imperfeição. Salvar-nos-ia a transcendência, esse além sublime e lugar onde tudo o que é, É. A integração do ser estaria nesse Ser distante.

A História do ocidente resume-se talvez nesta busca, mudando apenas os métodos com que procuramos. Se os áticos acreditaram na filosofia, outros partiriam rumo à revelação, seja na vertente judaica, na cristã, ou na muçulmana, porque sim, por muito que isso possa custar a Samuel Huntigton, os árabes, e até os persas, são ocidentais.

O imperialismo ocidental radica na Ideia. Se a Ideia é perfeita, não admite o contrário, torna-se fundamentalista. Buscamos algo a que chamamos "verdade" e acreditamos que ela existe. Esta solução para a angústia é o átomo que explica a História ocidental.

Nas minhas deambulações pelo mundo tenho encontrado outros modelos culturais que não vivem esta opressão. Não têm a noção de transcendência, o espírito e a matéria não são entidades à parte, não são diferentes mundos. Para um balobeiro (sacerdote tradicional) da etnia papel da Guiné, os espíritos vivem no mesmo tabuleiro em que jogamos aqueles que estamos materialmente vivos. Para um andino que fale quéchua, não há uma separação entre divino e humano, tudo se une na mesma natureza; a montanha, a terra ou a água que adora, não são ídolos, são parte dum todo onde ele mesmos se insere.

Já vivi um tempo de muitas certezas, de muita crença na precedência da ideia sobre a ação. Felizmente temos Camões: “Nem me falta na vida muito estudo, com experiência misturado”. É talvez isso que falta aos que primam pela ideia, e que pela ideia acreditam chegar ao sublime. O drama é que, numa frase muitas vezes ouvida ao meu saudoso amigo Artur Castro Neves, “o sublime leva ao crime”. Não é preciso concretizar exemplos da História que atestam, a ferro e sangue, esta realidade, assim sejam genocídios, escravaturas, ou mães de todas as batalhas.

Sem perder a Razão, e eu estou entre aqueles que querem morrer racionalistas, temos de a usar para criticá-la a si mesma. Os existencialistas, com Sartre à cabeça, fizeram-no na perspetiva psicológica: “A existência precede a essência”. Será talvez o momento de trazer o conceito para a política e concluir que a Antropologia precede a ideologia.

“Há mais no céu e na terra do que sonha a tua vã filosofia, Homero”, desabafou Otelo. E há muitos mais modelos políticos, económicos e sociais do que aqueles que consegue imaginar o nosso pensamento ideológico. São modelos que se desenvolveram naturalmente, sem que ninguém os teorizasse, sem que alguém os tivesse imposto, sem que nenhum pensador deles se tivesse assenhoreado, porque basicamente é isso que fazemos quando queremos ser filósofos: Possuir a ideia à que chegamos. E, se a ideia é ideia, então tem tudo para ser totalitária porque, lá está, é do outro mundo, ergo, tem de ser perfeita.

Em alternativa, basta estar atento. A realidade aí está!... e tenho-a visto, no céu e na terra.



Luís Novais


Nota: A foto é minha. trata-se duma criança da etnia Yagua numa comunidade nativa onde passei uns dias, na fronteira entre as Amazónias peruana, brasileira e colombiana.

terça-feira, 25 de julho de 2017

ANTÓNIO COSTA, AS VÍTIMAS E OS EXEMPLOS DA HISTÓRIA

Se concordamos que as afirmações de Gentil Martins ou André Ventura são perigosas porque já vivemos intolerâncias e holocaustos, não é menos certo que também o comportamento de António Costa, porque já vivemos censura e fascismo.

Referindo-se a um grupo populacional, o candidato do PSD à câmara de Loures fez um discurso xenófobo e populista. Não faltaram, e ainda bem, as reações de denúncia. Redes sociais e artigos de opinião na imprensa, uniram-se no elenco das semelhanças entre esta visão simplista e o crescimento da extrema-direita, tanto da trumpista como da europeia. Não faltaram exemplos da História e lembranças de até onde já nos levou a estigmatização de grupos culturais.

O médico Gentil Martins deu uma infeliz entrevista na qual revelou uma mistura de homofobia com falsidades clínicas. Referiu-se à homossexualidade como uma anomalia, como um desvio de personalidade semelhante ao sadomasoquismo ou à automutilação. Uma vez mais, entrou a História para nos mostrar que este tipo de posição é, sim, um desvio e que já nos levou a muito maus caminhos. Fernanda Câncio assinou um artigo onde lembrou as perseguições nazis e a quantidade de pessoas que Hitler assassinou com base na orientação sexual.

A História como exemplo é uma das mais valias que esta disciplina tem para nos dar, e sou grande adepto de que seja usada também com esse fim. Apontar os crimes do passado quando ouvimos os petardos de André Ventura ou as frases infelizes de Gentil Martins, faz todo o sentido apesar de, no caso deste último, me parecer que se foi longe de mais e, em alguns casos, se roçou menos humanidade que aquela que se lhe apontou, quando não a mais vulgar das boçalidades.

Surpreende-me, sim, que muitos dos que participaram e participam ativamente nestas ondas de denúncia, criem uma carapaça protetora em torno de um outro escândalo que também nos traz reminiscências dum passado a que não queremos regressar. Refiro-me aos malabarismos de António Costa com a questão de Pedrogão Grande, nomeadamente à forma como está a lidar com a questão do número de vítimas.

Há uns anos li um artigo de Pacheco Pereira, onde contava a forma como as trágicas consequências das cheias de 1967 foram ocultadas pelo governo da ditadura. Citando de memória, dizia-nos que tanto ele como muitos da sua geração trabalharam voluntariamente no apoio às vítimas, e contava-nos a consciência política que se lhes despertou quando testemunharam a extrema pobreza na que viviam as populações ribeirinhas, bem como a revolta sentida quando confrontaram a real dimensão da tragédia testemunhada com a ocultação da verdade que a censura impunha.

Voltando a Pedrogão Grande, a atitude de António Costa não tem qualquer justificação, menos ainda o refugio num alegado segredo de justiça que não tem sentido aplicar à identificação das vitimas. Trocar a censura de antigamente por um injustificado argumento como este, não é essencialmente diferente.

Curioso, é o refugio de alguns, que preferem comentar o infeliz estilo do líder parlamentar do PSD, do que a forma como o governo está a procurar ocultar a verdade. A História serve para isso e, se concordamos que as afirmações de Gentil Martins ou André Ventura são perigosas porque já vivemos intolerâncias e holocaustos, não é menos certo que também o comportamento de António Costa, porque já vivemos censura e fascismo.



Luís Novais

Foto, retirada do Blog Ié Ié

segunda-feira, 24 de abril de 2017

LIBERTAÇÃO

Perder:
Não ser sonho
que outro sonhou
em sonho que é seu.

Ganha-se então;
o triunfo aparente,
da derrotada alma.

Se ganhamos por fora,
trata-se apenas desse sonho
que não sonhamos.

Em ganhando dentro,
somos derrotados fora.
Triunfa o Ser que é,
perde o homem que fazem.

Anuncio-vos o  derrotado:
perdido de fora para dentro,
ganhando primeiro, de dentro para dentro,
ganhando depois, de dentro para fora.
De espinhos sua coroa,
em cruz, seu trono.
Toma do cálice
que libertará.


Entra o vencedor:
publica ovação.
vem de mãos lavadas,
e aurífero sinete.
O vencer não tido,
na aparência desse brilho
que o ser lhe perdeu.
Bebe da água suja,
que mãos lavou


Quem não se liberta,
não liberta.
Ganhamos futuros,
perdendo presentes!


Luís Novais

domingo, 23 de abril de 2017

a PARTÍCULA, num pijama com bolinhas.

Vejo pelas ruas
um poeta que chora.
Chora para não chorar.
Pena da humanidade,
para destino seu não penar.
Chora não chorando.

Damos tanto pela pouca matéria,
nada pelo muito espírito.
A matéria que a vista alcança
pelo espírito que tudo pensa.
Nem do aprendido já, aprendido fazemos:
Que do menos que nas coisas há, nada mais se retira.
E investimos, como loucos investimos,
para chegar ao muito que há,
partido do não havido.
Impossível entender o que É, e que é,
com o que não sendo, apenas é.
Um, É.
Outro, está.
O que está não alcança o que É,
o que É, o que está é também.

Destruam a helvética e franca máquina; essa mesma!
Processem-na por inútil.
Quebrem-na com a raiva
do constatado erro; vosso.
O que está em pensamento,
só com pensamento se alcança.
Da ciência façam poesia,
da poesia, ciência.

E já lá vai o poeta,
vai de pijama pela rua,
aquele com bolinhas azuis,
esse que veste para sonhar.
E sonhando, à particula chegou.
Mas porque de pijama, ninguém o escuta.
Tampouco a ninguém se dirige.
Não tem tempo: encontrou.
Tivesse ele uma bata branca...
mas não sonharia, caramba!
E não sonhando não acharia.
É por isso que apenas segue,
sabendo sem ser ouvido.
Segue para não parar,
vestido com o que veste,
chorando para não chorar.

Luís Novais


quarta-feira, 22 de março de 2017

A CRISE DE POESIA



Falar de crise com números, é esconder a luz com a sombra, a causa com o efeito: Temos uma crise, sim, mas de poesia.

Calhou-me ler a “História do Futuro” do Padre António Vieira (1608-1697), sendo dia mundial da poesia e lendo esta passagem: “O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser, ou como era bom que fossem”. Uma declaração que encontra mais sentido no contexto em que o “Imperador da língua portuguesa”, como lhe chamou Pessoa, escreveu esta obra: Espécie de anúncio dum futuro glorioso, que se seguiria às provações que o Portugal de então experimentava.

Isto conduz-nos diretamente para o papel da poesia e da literatura, numa sociedade que vive um positivismo em crise, que navega uma ciência que não pode dar todas as respostas humanas, que ora numa universidade que herdou os erros dos templos sagrados, sem conseguir dar o absoluto que estes ofereciam.

Vieira fala-nos da importância da profecia, o nome escatológico para mito, ou, numa linguagem mais laboratorial, para utopia. Entre vários exemplos, contempla o de Alexandre Magno, que construiu um império graças à força que lhe deu uma promessa, que o fez partir “vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental, o qual sujeitou e uniu todo ao seu império”. Porém, diz, “o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre, é a desigualdade de meios com que entrou em tão imensa empresa (…), saiu da Macedónia com menos de quarenta mil homens, bastimentos para trinta dias, e com setenta talentos para estipêndios”. Onde estava então a força? Na profecia, a mesma que dava alento aos seus para avançar e aos conquistados para recuar. “Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca, o qual, se deve a Filipe ser Alexandre, deve (ao profeta) Daniel o ser Magno!”

O assumir do papel psicológico do mito, é depois canalizado para a própria história de Portugal: O prenúncio que o ermitão de Ourique terá feito a Afonso Henriques nas vésperas da batalha. Estaríamos perante uma espécie de mito fundador da nacionalidade, assegurado que já estava ao príncipe ser vontade divina que este fosse rei e Portugal reino. É graças a tal graça, que Afonso “rompe os esquadrões, desbarata o exército, mata, cativa, rende, despoja, triunfa; e alcançada na mesma hora a vitória, e libertada a pátria, pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça, já rei, a portuguesa”.

Se “isto obraram as profecias daquela noite na guerra”, mais ainda “mostraram os seus poderes na conquista”, e aqui António Vieira entra diretamente nos descobrimentos e no peso que o mito teve na coragem com que os navegantes enfrentaram esse mar que Pessoa viria a dizer português: “Que trabalhos, que vigias, que fomes, que sedes, que frios, que calores, que doenças, que mortes não sofreram e suportaram, sem ceder, sem parar, sem tornar atrás, insistindo sempre e indo avante”. E porquê? Porque “sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu evangelho”.

Estas palavras escritas por volta de 1650 fazem refletir, não só sobre o nosso tempo, mas sobre o papel da utopia, transfiguração moderna do conceito de que Vieira fala. Escreveu numa época de crise nacional, estava a restauração recém-iniciada e em curso uma série de batalhas com Espanha, que só culminariam com o Tratado de Lisboa em 1668. Ante a ameaça que pendia sobre o reino, fala-nos da importância da profecia, como ponto partida para uma outra e nova que ele mesmo adiantaria algumas páginas mais adiante: A do grande futuro que estava fadado a Portugal, como cabeça dum quinto império que converteria o mundo ao cristianismo.

O objetivo de António Vieira não só é claro, como ele próprio faz questão de que seja claro aos hermeneutas: Há que sonhar, para vencer as agruras do presente, sublimando-as na promessa dum futuro grandioso, numa palavra, uma utopia.

Em seguintes períodos de crise nacional, outros lhe seguiram as pisadas. Nem é preciso fazer referência à situação em que se encontrava a Europa, o mundo e Portugal em 1934, para estabelecer uma ligação direta à “Mensagem” de Fernando Pessoa. “A Europa jaz posta nos cotovelos”, diz, mas “Fita com olhar esfíngico e fatal,/O Ocidente, futuro do passado”, e “O rosto com que fita é Portugal”. Uma Europa que 16 anos antes se digladiara no confronto mais mortal de que havia memória, que enfrentava ainda os efeitos da grande recessão, e um Portugal exausto que, nove anos antes do nascimento de Pessoa, já Oliveira Martins anunciara morto de exaustão desde 1580 e uma espécie de morto vivo depois da restauração. O Pessoa de “Mensagem” vive numa Europa sob dois ecos, os da Primeira Guerra, e os que já anunciavam a Segunda. Viveu a primeira infância num país abalado pela bancarrota de 1892-1902, espécie de bater no fundo dum século em que as finanças públicas rebentaram por seis vezes. Seguiu-se-lhe uma república que não foi capaz de sobreviver às suas próprias contradições e promessas. A obra foi escrita um ano depois da constituição de 1933, que marca uma viragem política e consolidaria essa ditadura que só encontrará fim em 1974.

E o que é “Mensagem” se não uma “História do Futuro” do século XX? Um assumir dos heróis, transfigurados em castelos, dos mártires da pátria, nas quinas. As agruras do presente são promessa de grandes futuros, “Os Deuses vendem quanto dão/ Compra-se a glória com desgraça”. Que resta aos mortais, que não aceitar e enfrentar tamanha dureza, se esta é forja de glórias? Já o mesmo pensamento na antiguidade, em Homero, quando, perto de arremeter contra as muralhas de Troia, Sárpedão diz a Glauco:
           
            “Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos
viver para sempre isentos de velhice e imortais,
nem eu próprio combateria entre os dianteiros
nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora de homens.
Mas agora, dado que presidem os incontáveis destinos
da morte de que nenhum homem pode fugir ou escapar,
avancemos, quer outorguemos glória a outro, ou ele a nós.

Ideia muito clara: O sublime é motor da humanidade, quer seja uma fé, uma ideologia, uma lenda, uma profecia. Por ser grande, a utopia é coletiva, e porque coletiva sempre cumpriu a função de unificar cada homem ao Homem, à espécie, à humanidade. E essa unificação é a que permite fundir o olhar individual no global, é daqui que nascem os grupos, as nações, e com elas a caminhada e um destino que, apesar de a posteriori, tem origem numa certeza apriorística.

O dia mundial da poesia é, talvez, o momento para dizer que o mal de que padecem Ocidente, Europa e Portugal, é o desperdício da função do poeta. Tem caminho mas não destino, quem troca o cifrão pela palavra, a estrofe pelo algoritmo, a técnica pela paixão, o sonho pela prática, a ambição pelo deficite, Ulisses pelo eurocrata. Falar de crise com números, é esconder a luz com a sombra, a causa com o efeito: Temos uma crise, sim, mas de poesia.




Luís Novais

segunda-feira, 20 de março de 2017

VENCEDORA DERROTA

Perder:
Não ser sonho
que outro sonhou
em sonho que é seu.

Ganha-se então;
triunfo aparente,
alma derrota.

Perdidos,
encontramos, ganhando.
Vencedores,
ganhamos, perdendo.

Ganhar:
O vencer não sido,
pelo ser perdido.


domingo, 19 de março de 2017

RAZÃO, AMOR e NOÉ

Sou do não tempo,
antes do que é.
Voltará:
quando hoje tenha sido.

Luzes para crer,
não crendo sem luz.
Passado foi, tempo meu.

Não amo bom criador
que não vejo nem sinto,
mas criação, nem boa nem má.

Alguém levará hoje,
ao tempo que será,
esse tempo que foi.
Amanhã serei, quando não seja.